terça-feira, 11 de novembro de 2008

Subjetividade... | Machado; Gottardi; Pinheiro

[p.1]*
SUBJETIVIDADE E PROCESSO DE CRIAÇÃO NA ESCRITA:
UM SOPRO DE VIDA [1].

Para citar este trabalho:
MACHADO, Leila Aparecida Domingues; GOTTARDI, Denise Pesca Pereira PINHEIRO, J. A. C. Subjetividade e processo de criação na escrita: um sopro de vida. In: IV Colóquio Internacional de Filosofia e Educação, 2008, Rio de Janeiro. IV Colóquio Franco-Brasileiro de Filosofia e Educação: “Filosofia, experiência, aprendizagem”. Rio de Janeiro: UERJ, 2008. v.1
Leila Aparecida Domingues Machado
Denise Pesca Pereira Gottardi
Janayna Araújo Costa Pinheiro
Universidade Federal do Espírito Santo – UFES
CAPES

RESUMO:
Na atualidade, as sociedades se constituem como grandes fábricas de subjetividade. Os fluxos da máquina capitalista nos invadem e nos corrompem incessantemente. Assumimos determinadas formas de pensar, trabalhar e escrever. A questão que aqui se coloca é que não pensamos essas formas como provisórias. Faz-se necessário avaliar nossas práticas e, nesse contexto, nossa escrita. A experiência da escrita na contemporaneidade nos convoca a pensar sobre como a produzimos, no que a mortifica e a potencializa. A escrita intimista, representativa da realidade, cópia de um mundo dado, constitui-se como dispositivo de controle que incide sobre a subjetividade, fabricando formas capturadas de escrever. Mas, em resposta, é na própria subjetividade que precisamos criar movimentos de invenção que escapem aos controles que insistem em nos cristalizar. Escrita errante, móvel, nômade, que substitui a intimidade do “eu” pela presença de um impessoal. A presente proposta de comunicação enfoca uma discussão acerca do processo de criação na escrita como meio de produção de outros modos de existência, de dissolução de formas dadas e cristalizadas, e de transformação do si e do mundo. Pensamos o ato de escrever como veículo de criação de novos modos de subjetivação, como movimento instituinte que ao se atualizar, ao configurar uma dada forma-subjetividade, concebe e pratica a vida como obra de arte. A escrita pela perspectiva analítica de Deleuze constitui-se como um caso de devir, como um processo de singularização. Pensamos a escrita como uma experiência que possa produzir disparidade nos conceitos e os jogue na imanência do que afirmam. Apostamos na escrita com uma função autopoiética, ou seja, uma escrita com função estética e política de criação de si. Não se trata de criação de “eus”, nem mesmo de demarcação de autorias, mas do encontro com a alteridade, um outramento que desmancha os modelos que reproduzimos e naturalizamos. Pelo encontro intensivo com a alteridade, uma dissonância é produzida nas referências em vigor. Porém é nesse momento que ocorre uma intensa mobilização das potências de criação e de resistência, uma necessidade de criar novos territórios e mapas, com o objetivo de dar corpo à mudança que se operou. A escrita pode dar forma a essa nova composição. Assim, pensamos o ato de escrever como um dispositivo que possa operar múltiplas resistências em detrimento da ação de reforçar os dispositivos de poder.
Palavras-chave: Escrita. Criação. Processos de Subejtivação.

[p.2]RÉSUMÉ:
Actuellement les sociétés se constituent comme de grandes fabriques de subjectivité. Les flux de la machine capitalistique nous envahissent et nous corrompent incessantement. Nous supposons certaines formes de penser, travailler et écrire. La question qu’ici se pose est que nous ne pensons pas ses formes comme provisoires. Il se fait nécessaire évaluer nos pratiques et, dans ce contexte, notre écriture. L’expérience de l’écriture, dans la vie contemporaine, nous convoque à penser comment nous la produisons, ce que la mortifie et la rend puissante. L’écriture intimiste, représentative de la réalité, copie d’un monde donnée, se constitue comme un dispositif de contrôle qui incide sur la subjectivité, fabriquant de formes capturée d’écrire. Mais, sous forme de réponse, c’est dans la propre subjectivité que nous devons crée des mouvements d’invention qui échappent aux contrôles qui insistent nous cristalliser. Ecriture errante, mobile, nomade, qui substitue l’intimité de « moi » par la présence d’un impersonnel. La présente proposition de communication focalise une discussion concernant le processus de création dans l’ecrite comme moyen de production d’autre moyen d’existence, de dissolution de formes données et cristallisés, et de transformations de soi et du monde. Nous pensons l’acte d’écrire comme véhicule de création d’un nouveau mode de subjectivation, comme mouvement instituant qu’au momment de s’actualiser, se configurer une tel forme-subjectivité, qui concoit et pratique la vie comme oeuvre d’art. L’écriture par la perspective analytique de Deleuze se constitue como un cas de devir, comme un processus de singularisation. Nous pensons à l’écriture comme une expérience qui puisse produire disparité dans les concepts et qui les jette dans l’immanence de ce qu’ils affirment. Nous parions une écriture avec une fonction autopoièse, c’est à dire, une écriture avec fonction esthétique et politique de création de soi même. Il ne sagit pas de création de « eus », ni de demarcation d’autorité mais de la rencontre intensive avec altérité, un autre qui desorganise les modèles que nous reproduisons et naturalisons. Par la rencontre intensive avec l’altérité, une dissonance est produite dans les références en vigueur. Néanmoins c'est à ce moment qui se produit une intense mobilisation des pouvoirs de création et de résistance, une nécessité de créer de nouveaux territoires et cartes, avec l'objectif de donner corps au changement qui s'est opéré. L’ écriture peut donner forme à cette nouvelle composition. Ainsi, nous pensons l'acte d'écrire comme un dispositif qui puisse opérer de multiples résistances au détriment de l'action de renforcer les dispositifs de pouvoir.
Mots clé: écriture, création, processus de subjectivation.


O que é que eu sou? sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito? eu sou um eu? “É exatamente isto, você é um eu”, responde-me o mundo terrivelmente” (LISPECTOR, 1978, p. 17).

Ao pensarmos em nossas vidas, em nossa singular história de vida, acreditamos na existência de um eu, de uma individualidade, algo interior, em separado do suposto exterior, o mundo. “Eu sou individual como um passaporte. Eu sou fichada no Félix Pacheco. Devo me orgulhar de pertencer ao mundo ou devo me desconsiderar por?” (LISPECTOR, 1978, p.39).
Não pensamos a nós como uma rede constituída por tudo aquilo que nos perpassa, como essa composição provisória de finitos materiais de expressão em ilimitadas combinações. Parece difícil imaginarmos nosso “eu” como algo tão incerto, provisório e instável. O medo do [p.3]desconhecido nos mantém presos a uma mesma forma da qual não estamos dispostos a abrir mão.
“Não encontro resposta: sou. É isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o quê? a resposta é apenas: sou o quê. Embora às vezes grite: não quero mais ser eu!! mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida” (LISPECTOR, 1998, p. 20.).

Então, o fluxo da máquina capitalista nos invade e nos corrompe incessantemente. Percorrendo tudo, todos, cada um de nós, estancando o fluxo desejante e delimitando-o na vontade de se dizer “eu”.
E se eu digo “eu” é porque não ouso dizer “tu”, ou “nós” ou “uma pessoa”. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu. (LISPECTOR, 1998, p. 12).

A noção de subjetividade, pensada a partir da perspectiva proposta por Foucault, Guatarri e Deleuze, nos conduz ao questionamento do dualismo clássico sujeito-objeto, corpo-alma, individual-social. Esta noção aposta na idéia de que a exterioridade não está separada da interioridade, como também não faz apologia à unidade e nem à uniformidade. “Essa identidade me leva a algum caminho? Que faço de mim? Pois nenhum ato me simboliza” (LISPECTOR, 1978, p.33).
Acabamos por considerar uma dada forma-subjetividade, que é contemporânea, como algo não variável, esquecemo-nos de sua produção histórica. Ao falar de subjetividades “propomos uma distinção entre modos de subjetivação - processos de subjetivação ou modos de existência - e formas-subjetividade – enquanto aspectos presentes na constituição da subjetividade” (MACHADO, 1999, p.1, grifo do autor). Referem-se, o primeiro, ao intempestivo, ao devir, à dissolução das formas; enquanto o segundo, ao estado das coisas, às formas em si. Assim se dá um movimento que nos atravessa no dia-a-dia, no trajeto de um lugar a outro, ou ainda de um pensamento a outro. “(...) divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos (...)” [2].
A subjetividade, pensada como uma rede formada por dobras, nos fala de territórios [p.4]existenciais. As dobras[3] envolvem formas-subjetividade e modos de subjetivação que conferem sentido para o que denominamos desejo, ciência, trabalho etc. Em cada momento histórico, determinadas configurações dessa rede se fazem presentes. Assumimos, então, determinadas formas de sentir, de desejar, de viver. A questão que aqui se coloca é que não pensamos essas formas como provisórias, como passíveis de assumir outras, abertas para o desconhecido, para o imprevisível da vida. “(...) a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si (...) o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração”[4] .
Os processos de subjetivação atravessam cada um, todo mundo, toda gente, toda parte. Nesse processo, o tempo todo afetamos e somos afetados. Neles ressoam potências de vida e mortificações. No movimento entre formas-subjetividade e modos de subjetivação deslizamos entre o que faz viver e o que deixa morrer. “Esquecer-se de si mesmo e no entanto viver tão intensamente” (LISPECTOR, 1978, p.13).
Desse modo, “precisamos experimentar uma análise do que estamos vivendo que incite a criação de soluções provisórias para o campo problemático que enfrentamos” (MACHADO, 2004a). Torna-se necessário avaliar nossas práticas e, neste contexto, nossa escrita. Se o biopoder[5] se apossa de nossas vidas, regularizando suas eventualidades, criando e recriando formas capturadas de pensar, de trabalhar, de escrever, é preciso, então, inventar outras possibilidades de pensamento, de trabalho e de escrita. “Entro lentamente na escrita (...). É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras”[6] . “E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo (...)”[7] . Pois quando escrevo, “escrevo muito simples e muito nu” [8].
A escrita intimista, representativa da realidade, cópia de um mundo dado, constitui-se como dispositivo de controle que incide sobre os processos de subjetivação fabricando formas [p.5]capturadas de escrever. Mas, em resposta, é no próprio processo de subjetivação que precisamos criar movimentos de invenção de escrita que escapem aos controles que insistem [insistimos] em nos cristalizar. Escrita errante, móvel, nômade, que substitui a intimidade do sujeito pelo Fora da linguagem [9].
Escrever, a exigência de escrever: não mais a escrita que sempre se pôs (por uma necessidade nada evitável) a serviço da palavra ou do pensamento dito idealista, ou seja, moralizante, mas a escrita que, por sua força própria lentamente liberada (força aleatória de ausência), parece consagrar-se apenas a si mesma, permanecendo sem identidade e, pouco a pouco, libera possibilidades totalmente diferentes, um jeito anônimo, distraído, diferido e disperso de estar em relação, um jeito por intermédio do qual tudo é questionado (...) (BLANCHOT, 2001, p.8).

O trajeto da escrita pode acontecer após a leitura de alguns textos, ao escutar uma música, ao assistir a um filme ou programa de TV, encontros que nos afetam e disparam uma ou outra idéia; dessas leituras podem emergir devaneios. Preferimos chamá-los devaneios, pois não se organizam como o “eu” gostaria. As idéias não saem prontas para formar um texto como estabelecido: com início, meio e fim. “(...) não começa pelo princípio, começa pelo meio, começa pelo instante de hoje” [10]. Esse vago pensamento não se apreende, surge como um sopro, como uma brisa ou uma ventania, um movimento intenso que nos afeta. As leituras que assim experimentamos agem com violência, nos tocam e produzem estranhamento e, então, se dá um encontro que nos força a pensar. Pois como afirma Deleuze (1987), pensar é sempre decifrar um signo, implica uma violência no pensamento, algo que o tira de seu natural estupor, das possibilidades abstratas. Mas é preciso predispor-se ao seu encontro, expor-se à sua violência. “(...) como escrever de tal maneira que a continuidade do movimento da escrita possa deixar intervir fundamentalmente a interrupção como sentido e a ruptura como forma?”[11] . Essa postura, sempre política, constitui-se como resistência, como a criação de uma linha de fuga nesse processo de escrita capturado – representativo e reprodutivo.
Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo (...). Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba. (LISPECTOR, 1978, p.10-11).

[p.6]Segundo Deleuze (1997), escrever é um caso de devir, é um processo, uma possibilidade de singularidade no mais alto grau. Não é impor uma forma a uma matéria vivida, mas extravasar o vivido. Escrever não é contar as próprias lembranças, os sonhos, é descobrir sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal, que não é generalidade, mas singularidade[12]. A escrita só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos destitui do poder de dizer “eu”. “Não se escreve com as próprias neuroses” [13].
Não é confortável o que te escrevo. Não faço confidências (...). E não te sou e me sou confortável; minha palavra estala no espaço do dia (LISPECTOR, 1998, p.16).

Eu me ultrapasso abdicando de mim e então sou o mundo: sigo a voz do mundo, eu mesma de súbito com voz única. O mundo: um emaranhado de fios telegráficos em eriçamento (LISPECTOR, 1998, p.23).

Através da escrita torna-se possível traçar uma língua estrangeira, um devir-outro da língua, uma minoração dessa língua maior. A escrita, portanto, pode ser concebida como esse lócus de produção, de criação. Utilizá-la como meio apenas de reprodução é fazê-la abandonar todo papel criador. “A escrita pode ter uma função autopoiética, ou melhor, uma função estética e política de criação de si” (MACHADO, 2004b)[14] e do mundo. Não se trata de criação de “eus”, mas de se mostrar um anonimato, um impessoal em meio aos eus, criando, assim, uma abertura, uma produção de diferenças, um desmanchar de modelos dados, reproduzidos e naturalizados. O desafio se constitui como um convite à transformação de si em meio à própria escrita. “Uma escrita que possa produzir disparidades nos conceitos, que os jogue na própria imanência do que afirmam” [15].
Ao escrevê-lo não me conheço, eu me esqueço de mim. Eu que apareço neste livro não sou eu. Não é autobiográfico (...). Nunca te disse e nunca te direi quem sou. Eu sou vós mesmos (LISPECTOR, 1978, p.19).

Eu e objeto / eu objeto / objeto eu / linha que inscreve / linha de contorno / sobre o mesmo plano / mundo, vida, discurso / dizível, indizível, visível, invisível / ferramentas que constituem o contorno / o desenho de uma cena / embaralham-se as linhas / outra cena. Uma seqüência de palavras que produzem um movimento onde o “eu” e o “objeto” se fundem e se distanciam pela linha do desenho da escrita. E não definem nem um e nem outro (nem [p.7]desenho nem escrita). E não tornam um e outro, como num somatório. O encontro constitui uma cena, que não se refere a um ou ao outro, antes forja uma outra via, engendra uma alteridade [16]. Ao debruçar-se sobre o papel em branco, ou sobre a tela branca do computador, como deixar emergir em nós esse terceiro? Como deslizar entre as linhas de força que nos atravessam e destituir-se do poder de dizer “eu”? “Construo algo isento de mim e de ti” (LISPECTOR, 1998, p.16).
Os processos de subjetivação são composições que criamos a partir do que vivemos em nosso cotidiano[17] . Pensar a escrita é pensar como, cada um de nós, em cada ato, pode fazer funcionar dispositivos atrelados a linhas duras, sedentárias, de conformação e captura, bem como, a linhas de resistência, a linhas de fuga, a linhas que criem fissuras em meio aos regimes de dominação a partir das composições que se fazem. “Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar” [18].
Criar linhas de resistência é criar “imprevisibilidades no que parecia previsível, incertezas no que parecia certo, possibilidades no que parecia impossível, fugas no que estava capturado” (MACHADO, 2008b). É estar “fora de nossos interesses particulares, de nossas certezas”. É estar aberto ao indeterminável, ao indizível, ao impensado. É preciso estar disponível ao encontro com o inesperado, com o intempestivo. É produzir através da escrita, dessa potência de transformação de si e do mundo, linhas de resistência, criação de outras possibilidades de escrita, outras possibilidades de vida. É fazer da escrita um processo de singularização, um encontro com a alteridade, um outramento.
Se na multidão, o ser é de fuga, é que o fato de pertencer à fuga faz do ser uma multidão, uma multiplicidade impessoal, uma não-presença sem sujeito: o eu único que sou dá lugar a uma indefinição paradoxalmente sempre crescente que me carrega e me dissolve na fuga (BLANCHOT, 2001, p. 57).

É preciso resistir a dizer “eu”, tentar mais de uma vez, cansar os olhos em frente à tela do computador, refazer as palavras, insistir no devaneio.
O principal a que eu quero chegar é surpreender-me a mim mesmo com o que escrevo. Ser tomado de assalto: estremecer diante do que nunca foi dito por mim (LISPECTOR, 1978, p. 70).

[p.8]Após o impacto da página em branco e uma aparente morte súbita do devaneio, a folha se deixa deslizar pelo olhar, as palavras vibram para traçar um desenho. Um sentido se delineia. Entre uma e outra palavra pode pulsar um desejo de se soltarem, de se expandirem em meio à potência de criação. Empurrarem-se para prosseguir um trajeto aleatório sobre a página, produzir conexões, rachaduras, misturas, hibridismos, distanciamentos. “Quando eu escrevo, misturo uma tinta e outra, e nasce uma nova cor” (LISPECTOR, 1978, p.69).
Por esse encontro intensivo com a alteridade, uma dissonância pode ser produzida nas referências em vigor: desmorona-se um território. Porém é nesse momento que ocorre uma intensa mobilização das potências de criação e de resistência, uma “necessidade de criar novos territórios e mapas, com o objetivo de dar corpo à mudança que se operou no corpo vibrátil [19]” (ROLNIK, 2003, p.19).
Cada palavra, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue (LISPECTOR, 1978, p. 16).

O devaneio escapou pelos dedos agitando uma vibração entre as palavras ousando ocupar as páginas em branco. Pausa na escrita e volta-se ao início do texto, o olho percorre as linhas e tenta acompanhar o movimento das palavras no papel. Tenta, pois as palavras ainda pulsam, e para não deixar escapar a idéia, lê novamente.
Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando silabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. (LISPECTOR, 1998, p. 11).

Dar corpo a essas mudanças constitui-se mesmo como o ato de criar. Pensar a criação como essa produção de diferença, corporificação no visível das diferenças que vão se engendrando no invisível (ROLNIK, 1992). A escrita dá forma a essa composição, a esse outro modo de existência que vai ganhando contornos. O ato de escrever se torna, então, veículo de criação de outros modos de subjetivação, movimento instituinte que ao se atualizar, ao configurar uma dada forma-subjetividade, infla de vida as páginas em branco forçando em nossa existência a experiência de uma vida como obra de arte.
Eu sou o atrás do pensamento. Escrevo no estado de sonolência, apenas um leve contato do que estou vivendo em mim mesma e também uma vida inter-relacional. Ajo como uma sonâmbula. No dia seguinte não [p.9]reconheço o que escrevi. Só reconheço a própria caligrafia. E acho certo encanto na liberdade das frases, sem ligar muito para uma aparente desconexão (LISPECTOR, 1978, p 70).

O instante em que somos tomados pelo ‘sonambulismo’ acontece num tempo e espaço que não controlamos. Muitas vezes, não nos deixamos ser tomados pela velocidade do devaneio, mas pela velocidade da máquina capitalista. O tempo do devaneio não segue a cronologia do relógio. Ele escapa por entre os dedos, como esse presente[20] . “O que falo é puro presente (...). é sempre atual (...) mesmo que eu diga ‘vivi’ ou ‘viverei’ é presente porque eu os digo já[21]
O olhar re-visita o texto sem que tenha o dever de reconhecer nas palavras um sentido prévio, para então ler. “Nada é mais doloroso, angustiante, do que um pensamento que escapa a si mesmo, idéias esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos” (DELEUZE, 1992, p. 259).
A escrita exige de nós um ‘jorrar do tempo’ (PELBART, 1993). Um tempo que não temos. No entanto, não interessa libertar-se do tempo, mas liberá-lo (PELBART, 1993). Procuramos, aqui, andar na contra-mão do capitalismo e das exigências do saber/conhecimento. Para escrever é preciso entrar na velocidade do pensamento, deixar que o devaneio tome corpo. Entretanto, como pensar essa escrita como uma potência e não torná-la parte dos dispositivos de dominação/captura? Os encontros produzidos nesse processo não são bons nem maus em si, mas disparadores de potências. “E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já”[22] .
Neste momento, pensando o ato de escrever como um dispositivo que pode operar múltiplas resistências em lugar da ação de reforçar os dispositivos de poder, indaga-se: Que possíveis temos criado para a escrita, para a vida? Que escolhas temos feito? Nossa escrita reforça e reproduz o instituído, ou realiza um movimento de produção de novos modos de se estar no mundo, um movimento instituinte? Afinal, por meio da escrita, o “que estamos ajudando a fazer de nós mesmos” [23]? “(...) estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra”[24] . Palavra que “(...) não se apresenta [p.10]mais como uma palavra, mas como uma visão liberta das limitações da visão. Não uma maneira de dizer, mas uma maneira transcendente de ver” [25].
Na perspectiva de Foucault, os exercícios de poder que circulam e que produzem formas capturadas de escrever não operam prioritariamente por repressão, ao contrário, justamente para que se mantenham e sejam aceitos, os exercícios de poder, exercidos por cada um de nós, produzem, criam escritas. Configuram-se como uma rede produtiva que percorre e transversaliza todo o corpo social, muito mais que uma instância negativa que tem por função reprimir. Assim, fazem funcionar de forma naturalizada normas referentes a padrões de escrita, criando formas e fôrmas para a mesma. “Que mal porém tem eu me afastar da lógica? (...) Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais”[26] .
É preciso pensar a escrita como um veículo que faz circular essa produção, como um dispositivo que alimenta (ou não) essa engrenagem. Essa produção em meio à escrita pode estar ligada a sistemas de poder que a produzem e a apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem, circularmente. Esse regime de produção capturado é condição de formação e desenvolvimento do sistema capitalista. “Eu queria iniciar uma experiência e não apenas ser vítima de uma experiência não autorizada por mim, apenas acontecida” [27].
Acreditamos, assim, que apostar em novas produções subjetivas em meio à escrita faz parte de uma militância micropolítica. O processo de criação na escrita faz parte de uma constituição ético-estético-política de nós mesmos. Cabe-nos, portanto, avaliar se ativas e produtoras de outros modos de vida ou se reativas e reprodutoras das forças do capital.
Escrever, então, passa a ser uma responsabilidade terrível. Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever desse ponto de vista, é a maior violência que existe, pois transgride e Lei, toda lei e sua própria lei (BLANCHOT, 2001, p.9).


NOTAS:
[1] LISPECTOR, Clarice, 1978. Título da obra: “Um sopro de vida”.
[2] LISPECTOR, 1998, p.10.
[3] As dobras constituem formas provisórias, “como um lenço que rola na areia e vai formando desenhos variados ao sabor do vento” (...) “Uma espécie de um dentro que não é fechado e que continua sendo parte de um fora-rede” (MACHADO, 1999, p.212).
[4] LISPECTOR, 1998, p.9-10.
[5] “Foucault distingue duas formas de ação sobre a vida e sobre a morte: o poder soberano e o poder de regulamentação ou biopoder” (MACHADO, 2008). O biopoder é um poder que visa controlar a vida das multidões, criando formas de viver. Controlar a vida seria “tomar posse dela; regularizando seus acidentes; criar e recriar formas cotidianas de pensar, de trabalhar, de falar, de ver, de amar, enfim, formas de viver que equilibrem os riscos” (MACHADO, 2004).
[6] LISPECTOR, 1998, p.14.
[7] Ibid, p.11.
[8] LISPECTOR, 1978, p.14.
[9] O conceito de Fora foi criado por Maurice Blanchot a fim de problematizar o processo de escrita. Desconstrói a idéia de literatura como representativa do mundo e propõe que a literatura seja a instauração de novos mundos. Cf. GIROTTO, Nara Lúcia. Blanchot, Foucault e Deleuze: convergências entre a palavra literária, a experiência do Fora e o impensado. Disponível em: http://www.unisc.br/cursos/pos_graduacao/mestrado/letras/anais_2coloquio/convergencias_palavra_literaria.pdf. Acesso em: 03 abr 2008.
[10] LISPECTOR, 1978, p.25.
[11] BLANCHOT, 2001, p. 37.
[12] A singularidade é aqui pensada como “processo de singularização”. Segundo Guattari e Rolnik (1986) o que caracteriza um processo de singularização “é que ele seja automodelador. Isto é, que ele capte os elementos da situação, que construa seus próprios tipos de referências práticas e teóricas, sem ficar nessa posição constante de dependência em relação ao poder global (...)”.
[13] DELEUZE, 1997, p. 13.
[14] Cf. a noção de si em MACHADO (1999, p.150) nota de rodapé.
[15] MACHADO, 2004b.
[16] A alteridade é aqui entendida como dimensão na qual se opera uma permanente produção de diferença. O efeito disso é uma complexificação cada vez maior do mundo (ROLNIK, 1992).
[17] MACHADO, 2008a.
[18] LISPECTOR, 1978, p.20.
[19] Segundo Rolnik (2006, p.31) o corpo vibrátil é “(...) todo aquele seu corpo que alcança o invisível. Corpo sensível aos efeitos dos encontros dos corpos e suas reações (...)”.
[20] Peter Pál Pelbart (1993, p. 35) cita Oury para explicar dois tipos de tempo existentes no grego antigo, o aion, que é esse presente que faz jorrar de dentro de si o tempo, e o kairos, que é o momento adequado, o bom momento para decidir e fazer.
[21] LISPECTOR, 1998, p.17.
[22] Ibid, p.9.
[23] ORLANDI, 2002.
[24] LISPECTOR, 1998, p.12.
[25] BLANCHOT, 2001, p. 68.
[26] Ibid, p. 13.
[27] LISPECTOR, 1978, p.18.


[p.11]REFERÊNCIAS:
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita / Maurice Blanchot; tradução: Aurélio Guerra Neto. – São Paulo: Escuta, 2001.
DELEUZE, Gilles. Proust e os signos / Gilles Deleuze; tradução de Antonio Carlos Piquet e Roberto Machado – Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
______. O que é filosofia? / Gilles Deleuze, Félix Guattari; tradução de Bento Prado Jr. E Alberto Alonso Muñoz. – Rio de Janeiro: Ed. 34.1992, 288p. (Coleção TRANS), p. 259-279.
______. A literatura e a vida. In:________. Crítica e Clínica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. p.11-16.
FOUCAULT, Michel. Isto não é um cachimbo. Tradução de Jorge Coli. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
______. Microfísica do Poder. 25ª. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Subjetividade e história. In: Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 25-126.
LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida: pulsações. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
______. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MACHADO, Leila Aparecida Domingues. O que chamamos clínica? (no prelo). In: ROSA, Edinete Maria. (Org.). A produção da Psicologia Social no Espírito Santo: memórias, interfaces e compromissos. 1 ed. Vitória: EDUFES, 2008, v. 1, p. 1-15.
______. Políticas de subjetivação (no prelo). In: MANFROI, Vania Maria; MENDONÇA, Luiz Jorge Vasconcelos Pessoa. (Org.). Política Social, Trabalho e Subjetividade. 1 ed. Vitória: EDUFES, 2008, v. 1, p. 1-18.
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______. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo / Suely Rolnik – Porto Alegre: Sulinas. Editora da UFRGS, 2006.
[*paginação]

Um comentário:

Janayna Araújo disse...

Gostaria de agradecer imensamente à Juliana Archajo pela disponibilidade e carinho na tradução do RÉSUMÉ.
bjs
Janayna